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Desconstruindo videoclipes para construir significados: Tove Lo e a pegada tears on the dance floor em “Habits (Stay High)”

Artigos, Videoclipe | 23 fev 15 - por João Paulo Porto
Tove-Lo

Por Emmanuel Guimarães do blog 

Primeiramente, devo agradecer à uma certa loja de departamento por ter incluído “Habits” da cantora sueca  na lista de músicas para ambiência e, em segundo lugar, aos ouvidos atentos de um amigo. Gostei tanto da música que fui para debaixo de uma das caixas de som incrustada no teto da loja e comecei a anotar trechos da canção para procurá-la quando chegasse em casa.

Tenho um certo apreço pela melancolia humana, as dores do amor principalmente. Não que eu goste de sentí-las, não que eu seja sádico mas em tempos de felicidade imediata é bom ver alguém se despir das normas impostas e dar a cara à tapa dizendo coisas como “passei meu dias presa numa névoa tentando te esquecer”, ou “chego em casa, tenho fome, como meus twinkies e depois vomito na banheira”. Tove diz, sendo mais popular, que ela está sofrendo sim, que está vulnerável sim e que não é obrigada a esconder a dor. Ela se joga em tudo o que sempre consideramos como alternativa para, como ela mesma diz, “anestesiar a dor”: drogas, festa e sexo.

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O clipe de “Habits” começa pelo fim, é mais um dia para se entregar a prazeres fugazes e tentar se livar da dor. Tove encena o que podemos chamar de uma estética “tears-on-the-dance-floor”, caracterizada por letras tristes e batida dançante, ou seja, você sofre mas sofre dançando, se acabando na pista de dança. Se ouvir música triste faz com que a gente se sinta melhor – o que é comprovado por alguns estudos científicos – “Habits” e outras que seguem a mesma linha desta canção, nos dão uma certa ajudinha. Se música é remédio para alma, “Habits” é uma pílula melhorada pois a batida não nos deixa ficar deitados em posição fetal, é droga no pior sentido que essa palavra possa ter e é serotonina no melhor efeito que este neurotransmissor possa nos causar.

Assistindo ao videoclipe, percebemos na atuação bipolar da artista a comprovação do entorpecimento: hora ela aparece feliz, “high all the time” em um lugar “where the fun ain’t got no end”. Em outras cenas, Tove chora, literalmente na merda. Ela “não pode ir sozinha para casa de novo” e precisa de alguém para, novamente, “anestesiar a dor”.

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Uma das grandes queixas ao clipe, sobretudo do público norte-americano (que adora reclamar de tudo em comentários do YouTube) foi a de que Tove estava “muito feia” nas imagens. Cá-pra-nós, meu amor: quem fica bonita no sofrimento? Nem chorando em Paris você consegue manter a cara boa. Além disso, o primeiro hit de Tove Lo demandava que o rosto dela ficasse marcado, por isso tantos closes no rosto da cantora. Despir-se de máscaras, da maquiagem, se afastar do padrão do belo é um desprendimento que só bons artistas têm. Do ponto de vista técnico, nota-se adição de filtro (cenas com coloração em tom rosa, denotam correção de cor) e valorização de cenas em planos detalhe, dando dinamismo quando aliadas às batidas da canção e intercaladas com planos maiores.

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Torço para que Tove não seja uma one-hit-wonder, aqueles artistas que só fazem sucesso com uma única música e somem. Gosto da inteligência e percepção ao compor, da introspecção e da simplicidade na imagem. Gosto do catching das melodias. No mais, não use drogas, escute Tove Lo que é tão viciante quanto e se tratando de música, só vai te fazer bem. 

João Paulo Porto
João Paulo Porto

Fundador do 1001 Videoclips e louco por The Smiths