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Para Ver Antes de Morrer: #221. Sepultura | Ratamahatta

Para Ver Antes De Morrer | 07 dez 13 - por João Paulo Porto
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O obscuro e intimidante “Ratamahatta” poderia ser considerado a versão “Sledgehammer” do mal, ou melhor, do Brasil. O Sepultura (A maior banda do gênero Metal séria do Brasil) havia cometido o seu maior clássico com Roots, um álbum poderoso e enlouquecedor, que elevou os parâmetros metaleiros para um outro patamar ao mesclar seu rock mais pesado com as “raízes” brasileiras. Para isso, se utilizou da percussão baiana de grupos como Timbalada e Olodum e de elementos sonoros dos índios Xavante. Arrancou elogios em publicações norte-americanas como The New York Times,Daily News e Los Angeles Times, e não é raro encontrá-lo em listas dos melhores álbuns de todos os tempos.

sepultura8O videoclipe dirigido por Fred Stuhr, é o mais conhecido do Sepultura e foi ao mesmo tempo um sucesso comercial e de crítica. Mesclou com criatividade horror e humor negro (melhor, cavernoso), ideias literárias e as convenções cinematográficas do Stop-Motion com efeitos especiais assustadores e comentários sociais sutis. Deixou à solta, na consciência cultural pop um vídeo para ser lembrado sempre.

Fred Stuhr faz um clipe complexo que nos leva ao universo do Claymation (técnica de animação em stop-motion feito ou baseado em modelos de barro) e traz à tona símbolos do cenário popular brasileiro como as favelas e a selva amazônica. O conceito do vídeo apresenta fantoches brasileiros mesclados com elementos tribais, voodoos, misticismo e terror. A letra da música (cantada em partes pelo ex-Timbalada Carlinhos Brown que também assina a co-autoria junto com os irmãos  CavaleraAndreas Kisser e Paulo Jr.) cita figuras populares do misticismo brasileiro como Zumbi, a figura lendária que criou o quilombo dos escravos fugidos, Lampião: o “rei do Cangaço” e Zé do Caixão, personagem de terror criado pelo cineasta e ator José Mojica Marins, além de palavras bastante comuns do nosso vocabulário como pipoca, garagem, favela, maloca e bocada.

O clipe começa com a imagem de um mapa-múndi se aproximando da tela até mergulhar na floresta amazônica. Imergindo no novo cenário, vemos um homem acariciando um cachorro em meio a sons tribais e figuras bastante assustadoras caminhando entre as árvores.

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A partir daí a música fica mais pesada e mostra dois dessas criaturas macabras invadindo a favela, roubando objetos e matando um bêbado. Dois olhos são lançados nas mãos de um mendigo e podem ter sido do bêbado assassinado. Logo em seguida, uma prostituta é seduzida e levada pelos ares até um lugar misterioso, repleto de crânios, colares e velas e pessoas olhando para um altar.

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Um ser superior e alto de aparência magra e careca aparece neste lugar, causando pavor a todos. Ele coloca um chapéu e segue pela floresta até se posicionar diante de um caldeirão preto. Ao som de batidas que lembram um ritual de magia negra, uma cabeça gigante é evocada. De dentro dela sai uma ligação estranha com várias cabeças pequenas. Elas experimentam um pouco do liquido que está sendo preparado e de repente, uma mão gigante captura o caldeirão e alguns indivíduos que participavam do ritual. A história retorna ao cenário da favela sendo invadido pela cabeça gigante e então, o bêbado termina por enxugar a boca de uma garrafa de pinga.

Bildschirmfoto-2012-11-27-um-14.11.01-460x260Com uma edição ágil e fotografia impecável, intensificada pelas cores preto, azul escuro, vermelho e tons escuros , Fred Stuhr captura o misticismo, a floresta, as figuras mitológicas, os rituais religiosos e figuras bastante comuns ao nosso cenário urbano, como prostitutas e bêbados – e sempre esquecidas. Pelos elementos óbvios apresentados no clipe, é fácil deduzir que o mesmo se trata de um ritual de Candomblé. – Estranhamente, o diretor morreria logo depois da gravação aos 30 anos. Não por acaso, deturpadores sugeriram que a causa da morte estaria relacionada a questões religiosas, intensificando qualquer crença que possamos ter nos poderes mágicos do misticismo.

Diferente do que já havia sido produzido até então no cenário audiovisual no Brasil, “Ratamahatta” é uma obra extremamente inteligente e cheia de vida. Tudo está perfeito e macabramente equilibrado. Embora o tema possa causar incomodo para religiosos mais simplistas (Candomblé e Voo Doo geralmente são vistas como seitas macabras), o clipe possui uma importância histórica significativa para o cenário brasileiro do audiovisual: raramente, questões religiosas e sociais haviam sido retratados em tais termos no videoclipe.

Direção: Fred Stuhr | Ano: 1996

João Paulo Porto
João Paulo Porto

Fundador do 1001 Videoclips e louco por The Smiths