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#pedidodoleitor: Análise do videoclipe de “Cool” da Gwen Stefani

#pedidodoleitor | 24 ago 15 - por João Paulo Porto
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Estreia no 1001 Videoclips a coluna #pedidodoleitor. O clipe escolhido para análise é um pedido do leitor Alex Carvalho, que inaugura a tag aqui no site e também no blog Clips&Clipes, parceiro de conteúdo do 1001 Videoclips. Você também pode enviar sugestões de análise clicando aqui.

Por Emmanuel Guimarães do blog 

O clipe de “Cool” da cantora norte-americana  é o 4º single do disco “Love, Angel, Music, Baby” (2004), um dos melhores álbuns pop que já ouvi. Se puder, ouça. Ele marca a estreia de Stefani em carreira solo. A música é estruturada de jeito simples, em verso e refrão e flerta com o new wave em sintonia com uma levada que toca na música pop oitentista.

O material foi apenas finalizado por Gwen, com a inclusão de toque próprio aos esboços do produtor americano Dallas Austin. A canção nos fala sobre um relacionamento que foi fadado ao fracasso e que, mesmo depois de anos, as duas pessoas conseguiram manter um certo nível de amizade. Apesar de tratar deste tema especificamente, a balada é otimista e possui melodia leve.

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O videoclipe de “Cool” foi gravado numa região da Itália conhecida como Lago de Como e foi dirigido por , responsável por clipes como “Fix You do Hips Don’t Lie” de Shakira e “Good for You” de .

Considerada uma das vistas mais bonitas da Lombardia, Como é o 3º maior lago italiano depois de Garda e do Lago Maggiore. Da minha lista de melhores videoclipes, com certeza este é um deles. Lembro que no tempo em que foi lançado, o vídeo nunca chegou às primeiras posições do Disk MTV e, quando raramente entrava, aparecia nos últimos lugares o que me frustrava e causava uma sensação de injustiça grande. Como poderia toda a geografia deslumbrante daqueles cenários não ser notada pelo público da MTV. “Cool” é de encher os olhos: a fotografia, a direção de arte e o figurino são impecáveis.

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Vista das cidades ao redor do Lago de Como na Itália

O enredo videoclipe é fiel à composição e se desenrola a partir de uma frase inserida na letra da música, mais precisamente no final dela. É quando Gwen diz: “now we’re hangin’ out with your new girlfriend“, em português: “agora nós saímos com sua nova namorada”. De fato, o clipe nos mostra um encontro na casa da personagem de Gwen, onde ela recebe o antigo amor acompanhado de sua noiva. Em “Cool, felizmente não vemos as harajuku girls tão frequentes e que, pelo menos para mim, chegavam a ser quase irritantes durante essa fase de Gwen Stefani. Ela até as importou para o trabalho seguinte, o “The Sweet Escape” (2006), mas enfim.

Ao longo do vídeo, aparecem flashbacks do passado. A maioria desses flashs vem, obviamente, da perspectiva de Gwen, salvo no encerramento quando somos ligeiramente interpelados com uma sequência de olhares do homem, fato que sugere que ele também ainda sente algo por ela, mesmo que um discreto carinho. É interessante notar que Gwen, depois dos anos que passaram, assim como o ex-namorado, ela não está sozinha apesar do seu caso atual não aparecer no clipe. É possível provar essa afirmação com esta cena:

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As duas aparecem uma mostrando a aliança para a outra e, na letra da canção, logo no início é dito: “It’s hard to remember how it felt before, now I found the love of my life”, ou seja, “é difícil lembrar de como era antes, agora encontrei o amor da minha vida”.

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No clipe, Stefani é reluzente e, apesar da nostalgia, a imagem que nos passa é a de que ela está bem, assim como sugere a letra da canção: “after all that we’ve been throughi know we’re cool”. Apesar disso, ainda existem breves momentos de flutuação e choro. A semelhança com a lenda do cinema, Marilyn Monroe também é gritante:

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Mesmo assim, a inocência da tristeza de Gwen é facilmente contornada com um sorriso tão solar quanto o videoclipe:

G_SOLAR

Na sala onde Gwen Stefani recebe os convidados, parece ser tudo tão sobre o casal do passado, que a outra distinta senhora, se assemelha a um móvel inútil dentro da mansão. Tenho certeza de que ela é indispensável dentro da narrativa como uma representação do presente, mas o fato de torcer pelas duas pessoas que viveram um amor antigo é tão grande, que me faz pensar:“Cê não tinha nem não que tá aí, linda”.

No entanto, a aura do clipe não denota raiva ou sentimentos negativos. Os sorrisos e olhares são tão reais que, mesmo na cena onde as duas moças trocas os anéis, é tudo muito sereno e calmo sem a existência de expressões de vingança ou joguinhos desnecessários: “after all the obstacles, It’s good to see you now with someone else”.

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Tony Kanal e Gwen Stefani


Outro detalhe importante do clipe é que essa tal distinta moça é interpretada por Erin Lokitz que é, na verdade, a atual esposa de Tony Kanal, ex-namorado de Gwen e pra quem ela dedicou “Don’t Speak” que fala sobre o fim do relacionamento dos doisJá Tony, é representado pelo ator e modelo espanhol, Daniel González.

Penso que poderia apenas supor que Kanal é inserido como personagem no clipe mas, contra fatos não há argumentos: “Cool é basicamente uma ramificação, ainda que madura, de “Dont Speak”. Encontrar relações entre as canções, nos leva a pensar até que ponto desde aquela época até quando a canção foi gravada e, quem sabe, nos dias de hoje, um amor antigo ainda mexe com Gwen Stefani.

Uma questão implícita no clipe de “Cool e que pode aguçar a curiosidade de espectadores mais atentos é que, além das questões de tempo, não ficamos sabendo o que motivou o desencontro do casal, as razões pelas quais eles se separaram. Nos são revelados, através do acesso à mente de Gwen, apenas momentos de afastamento, instabilidade e tristeza nas cenas de lembrança. O bom desse tipo de balada é o quão humana e realista ela pode ser: fala-se de otimismo mas é reservado o espaço da realidade e dos sentimentos que gostamos tanto de evitar.

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Tempo.  Esse é o norte do videoclipe. Gosto do começo, da leve tensão do início quando Erin Lokitz respira fundo e passa a mão na barriga e depois Gwen é mostrada cabisbaixa olhando qualquer coisa que se deixa em cima da mesa: a ansiedade pré-reencontro.

take

No começo do texto, além da fotografia, mencionei o figurino que cumpre bem sua função de diferenciação entre presente e passado dentro do clipe. Mais do que um recurso usado para diferenciar, em oposição às roupas de Stefani, o figurino do casal (ambos de preto), pode ser um reflexo da seriedade de agora em contraponto com os dias coloridos que já se foram na figura representativa de Gwen“look how all the kids have grown, we have changed but we’re still the same”. 

Ainda sobre a indumentária, a forma como Gwen está vestida se alinha a decoração do set, como se ela fosse uma extensão da própria casa, ambos nas mesmas tonalidades. Quando o ex-namorado adentra o lugar e perturba sua atmosfera, é como se o passado voltasse aos tempos áureos de antigamente. Estar dentro da mansão, é como estar no coração de Stefani.

2005 é um ano especial pra mim, lá conheci pérolas como essa e me apaixonei de fato à música. Se eu pudesse escolher um clipe que representasse o clima daquela época, certamente seria esse. Era tudo mais fácil do que é hoje. “The dreaming days where the mess was made”. “Cool” foi a trilha de pessoas e lugares e hoje ambienta apenas memórias. “Esqueça o passado”, dizem, mas o passado é como um presente dado por uma pessoa querida, e como presente que é, eu prefiro ainda cuidar dele.

Dez anos depois, somos todos um pouco da poesia de Stefani e Austin. As lembranças, hoje, não só parecem, mas agora elas são de muito tempo atrás. Se há algum conforto no presente em detrimento do passado que, vez ou outra, queremos reviver, se há algo que engata nosso sentimento de que hoje é melhor do que ontem, é que, como diz Gwen Stefani na letra de “Cool”, o tempo sempre cura toda e qualquer  dor. E assim, como não há outra alternativa, seguimos em frente.

João Paulo Porto
João Paulo Porto

Fundador do 1001 Videoclips e louco por The Smiths