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Para Ver Antes de Morrer: #303. M.I.A. | Bad Girls

Para Ver Antes De Morrer | 02 set 16 - por João Paulo Porto
MIA

Quando irrompeu nas manchetes ao mostrar – inesperadamente – o seu dedo do meio na frente de mais de 110 milhões de espectadores do show do intervalo do Super Bowl, o melhor estava por vir. Dias após, ela lançaria o fenomenal video de “Bad Girls”, uma canção controversa que geraria uma série de especulações sobre seu verdadeiro significado.

No entanto, qualquer que seja a interpretação individual, o vídeo mostra claramente estereótipos banais do mundo árabe, e perpetuar estes poderia ter um impacto real sobre a forma como vemos outras culturas. Mas neste caso, a coisa ficou bonita.

M.I.A_Bad_Girls

Para “Bad Girls” o polêmico – e para mim, o melhor diretor dos últimos anos – promoveu um vídeo absolutamente deslumbrante estrelado por alguns dos melhores motoristas do Oriente Médio.

Filmado no deserto do Saara Marroquino, o foco do vídeo são as mulheres subversivas e misteriosas vestidas em inspiração árabe, com um toque moderno. Nele, faz um rap dentro de um carro – feito sob medida para as filmagens – apoiado somente nas duas rodas da direita (!) em acrobacias que desafiaram a morte em uma série de cenas hiperbólicas, cuidadosamente coreografadas e extremamente divertidas.

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Anunciado por criticar e confrontar os direitos das mulheres na Arábia Saldita (onde a mulher é extremamente proibida de dirigir), alguns argumentam que a mensagem é uma crítica inequívoca e ousada a respeito da proibição (afinal de contas, o vídeo não coloca as mulheres, ou pelo menos uma mulher, no banco do motorista). No entanto, outros afirmam que o impacto global deste vídeo é a perpetuação de representações estereotipadas da cultura árabe.

A gente que manda nessaporra

A gente que manda nessaporra

Claire Suddah da gigante Time concorda que, à primeira vista, o vídeo parece ser um declaração política sobre as mulheres motoristas na Arábia Saudita e uma elegante peça esteticamente agradável, afirmando que o vídeo diverte de qualquer maneira e que o público poderia concordar que as mulheres e os homens deveriam ser capazes de “dirigir seus carros em duas rodas” de forma igual.

No entanto se fosse realmente um fiel estereótipo da mulher saudita, o clipe mostraria elas submissas, e não segurando armas e dirigindo carros. Não é verdade?

A crítica Elizabeth Broomhall apreciou o trabalho de ao comentar que o mundo agora pode prestar atenção ao direito das mulheres de dirigir, foi além: (M.I.A.) “é uma artista feminina que “finalmente” fez algo diferente.” Por coincidência, o vídeo foi feito num momento em que as mulheres sauditas começaram a lutar contra a proibição.

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A inglesa do Sri Lanka, Matangi “Maya” Arulpragasm se tornou uma figura polêmica depois de colaborar com o diretor francês Romain Gavras em Born Free (um dos clipes mais violentos e assustadores de todos os tempos). Aqui vemos uma mulher corajosa que anda em carros em movimento sem dublê – bem diferente dos mega-coloridos clipes anteriores – cercada por vários homens árabes em um clipe que alavancou sua carreira. Maya canta um rap sobre o domínio sexual feminino, mas seu clipe é casto – diferente do empoderamento visual de Run The World (Girls)” da Beyoncé – vemos mulheres assumindo posições que contradizem com a realidade do povo saudita em detrimento de imagens de corpos sexy rebolando na tela.

“Bad Girls” é um clipe sem medo de misturar sonhos feministas com um leve sarcasmo e mágica glamourosa com um tino materialista a respeito do que uma garota precisa fazer para se virar.

O garotinho ruivo é só uma lembrancinha do clipe de "Born Free".

O garotinho ruivo é só uma lembrancinha do clipe de “Born Free”.

Gavras é um diretor impressionante e talentoso. Em “Bad Girls” ele se superou. De um modo mais geral, a obra conseguiu oferecer uma fantasia que almejava esquentar o debate sobre vários assuntos; de política, ao preconceito e xenofobia, em detrimento do entretenimento puro e simples que a maioria dos diretores buscam em seus trabalhos. Ele conseguiu expressar visualmente sua criatividade de maneira completamente diferente de outros diretores de videoclipes atuais. “Seria um desperdício total se eu tivesse me prostituído dirigindo videoclipes para a Lady Gaga. Pura verdade!

Diretor: Romain Gavras | Ano: 2012

 

João Paulo Porto
João Paulo Porto

Fundador do 1001 Videoclips e louco por The Smiths