Para Ver Antes de Morrer: 82. t.A.T.u | All The Things She Said

Anos 2000, Para Ver Antes de Morrer | 10 mar 19 - por João Paulo Porto

Tudo poderia dar errado com “All The Things She Said”. A faixa, que foi lançada no verão de 2002 pelo duo pop russo t.A.T.u, era basicamente o enredo de um drama lésbico em plena Russia homofóbica. Mas Lena Katina e Yulia Volkova não eram lésbicas na vida real. Elas eram duas pessoas francas e honestas, fingindo ser algo para uma música e um vídeo. E, mais do que isso, sua banda tinha sido fabricada por dois caras velhos que montaram audições para encontrar garotas adolescentes que se vestiam em uniformes escolares e se beijavam para vender discos. Se fosse hoje, o t.A.T.u, talvez não teria sequer saído do papel.



“All The Things she Said” foi um sucesso instantâneo. A faixa chegou ao número 1 no Reino Unido por quatro semanas consecutivas, e ficou por mais 15 semanas. Vendeu milhões em todo o mundo, tornando-se ouro certificado em sete países diferentes e platina em cinco – nada mal para uma música que foi supostamente escrita depois que Elena Kiper, “recebeu” as letras, enquanto dormia durante uma cirurgia dentária. Sonhou que estava apaixonada por outra mulher, acordou gritando “Eu perdi minha cabeça” e imediatamente transformou a narrativa de seu subconsciente em um enorme club banger.

Claro, a faixa acompanhou um videoclipe controverso. Mas os telespectadores não estavam muito preocupados com a dupla fingindo ser queer, a fim de ganhar dinheiro enquanto as os verdadeiros queer eram ofuscados. O público ficou mais chocado com a imagem de duas garotas se beijando em trajes minúsculos.

Muito além da provocação, o videoclipe, dirigido por James Cox transmitia uma mensagem clara: separadas por uma cerca de arames farpados numa chuva torrencial, de um lado, estavam os preconceituosos e do outro, as vítimas. Mas adivinha quem estava verdadeiramente isolado? Isso mesmo, os caretas. Uma bela mensagem de libertação tanto LGBT quanto feminino.

Muita gente não gostou nada do que viu. Inclusive ouve campanhas para banir o clipe por “favorecer a pedofilia” (ninguém reclamou quando Britney aparecia na escola em “Baby One More Time“?). Algumas redes de TV boicotaram o clipe porque não era “adequado para crianças”. A BBC, em seguida, negou a proibição do videoclipe no Top of the Pops, embora eles nunca tenham mostrado.



Mas é impossível escapar dos fatos: “All The Things She Said” é uma música pop legitimamente incrível. Baseado apenas no som, ela já merece ficar exibida nos museus do pop, ao lado de “Believe” da Cher e “Express Yourself” da Madonna. Mas há outras razões pelas quais a música e o vídeo são decisivos.

Hoje em dia, a visibilidade queer já é bastante popular, basta ver os sucessos da RuPaul, Troye Sivan, Pabllo Vittar, St. Vincent entre outros, mas no início dos anos 00, o cenário era diferente. Mesmo que sabendo que na vida real, as cantoras não eram lésbicas, seu romance forjado fez tremendo sucesso e o videoclipe foi adotado como bandeira. E de alguma forma, grande parte das garotas deste tempo se identificaram com este clipe.

Diretor: James Cox | Ano: 2002

 

João Paulo Porto

Criador do site 1001 Videoclips e apaixonado por The Smiths.