Para Ver Antes de Morrer: 71. R.E.M. | Orange Crush

Anos 80, Para Ver Antes de Morrer | 19 fev 19 - por João Paulo Porto

O R.E.M. esteve na vanguarda das bandas “alternativas” dos anos 80, que se tornaram grandes grupos de rock nos anos 90, junto com o Depeche Mode, o Red Hot Chili Peppers e toda a cena grunge de Seattle. O ano chave da transição foi 1991, quando o Nirvana se tornou uma sensação de uma noite para o dia e o REM lançou sua maior música, “Losing My Religion”.

“Orange Crush” ocupa uma posição interessante na ascensão global do R.E.M. Eles ainda eram, tecnicamente falando, “alternativos”. “The One I Love” foi um sucesso relevante. “Orange Crush”, em retrospecto, é uma das melhores músicas do REM, mas era muito moderna para público mainstream dos anos 80. O que realmente levou a canção a se tornar memorável, foi, sem dúvidas, o seu sofisticado clipe, que esconde muitos segredos.

A música parece ser sobre a perda da inocência pós Guerra do Vietnã, embora a guerra não seja especificamente mencionada. O refrigerante Orange Crush simboliza a inocência americana ao mesmo tempo em que alude ao agente laranja.

A música saiu quando a Guerra do Vietnã estava se estabelecendo na cultura pop, seja por causa dos filmes Platoon e nascido no 4 de julho, através do single “19” de Paul Hardcastle ou durante intermináveis programas de TV.

“Orange Crush”, no entanto, reflete a crítica geral liberal que dominou essas reflexões da cultura pop sobre a guerra. As letras “serve your conscience overseas” e “we are agents of the free” ecoam a retórica propagandística da guerra e os sons de helicóptero aparecem na música. O helicóptero se tornou um símbolo-chave da guerra, pelo menos na mídia, seja em imagens de notícias, em Platoon ou na famosa fotografia do último helicóptero que partiu de Saigon em 1975.

Todo o vídeo é filmado em um suntuoso preto e branco, não muito diferente de “Cherish” da Madonna, mas com contrastes mais fortes entre a luz e a escuridão. É o estilo de preto e branco que você espera ver em uma galeria de arte ou um anúncio de moda de revista. Cada detalhe é claro e preciso, mas as sombras escondem alguns desses detalhes. O céu é um cinza vasto e vazio. A fotografia em evoca um sonho do passado, dos filmes antigos e até da própria história. É perceptivo nos clipes de “Linger” dos Cranberries, “Broken Wings” de Mr. Mister e “Boys of Summer” de Don Henley. Cada um desses vídeos, incluindo “Orange Crush”, tem uma pungência nostálgica que evoca o desejo por coisas perdidas.

“Orange Crush” é estilizado e tem um toque de narrativa, mas o uso pesado da câmera lenta dá ao vídeo uma vibe de natureza morta (enquanto também erotiza as imagens).

Assim como o clipe de “It´s the End…”, “Orange Crush” tem imagens homoeróticas contundentes, incluindo homem sem camisa em serviços braçais em fotografia preto e branco deslumbrante. Aqui, Homens são objetivados, nenhuma mulher aparece no vídeo, algo muito incomum para a época.

O diretor Matt Mahurin tem um currículo muito impressionante, incluindo “Eye of the Zombie”, de John Fogerty, “Fast Car” de Tracy Chapman, “Silent Lucidity” do Queensryche. Todos esses vídeos têm muita câmera lenta e escuridão. Não é de admirar que ele tenha dirigido tantos vídeos sobre o grunge, que revelavam imagens sombrias e ameaçadoras. 

Neste trabalho ele utilizou a simetria dos “Ahhhhhs” e do corpo do homem de forma não acidental e serve para melhorar a lamentação do vídeo pela beleza dos sacrifícios feitos na guerra em geral, mas particularmente durante a Guerra do Vietnã.

Ao olhar para trás, não é de se admirar que o vídeo não tenha sido um sucesso na MTV, talvez por causa impressionante e – de acordo com Stipe – intencional sensibilidade homoerótica.

Diretor: Matt Mahurin | Ano: 1988

João Paulo Porto

Criador do site 1001 Videoclips e apaixonado por The Smiths.