Para Ver Antes de Morrer: 49. Kendrick Lamar | Alright

Anos 2000, Para Ver Antes de Morrer | 29 out 18 - por João Paulo Porto
Kendrick-lamar

A simbologia evocada pelo clipe de “Alright”, faixa retirada do excelente To Pimp A Butterfly é de encher os olhos. Desde este clipe, lançado em 2015 e eleito o melhor do ano por mais de um crítico sério, Kendrick Lamar se preocupa cuidadosamente com a produção de seus clipes, em produções caprichadas e cheias de referencias históricas, possibilitando ao espectador refletir sobre a realidade difícil do negro norte-americano.

Vale lembrar que suas canções são inspiradas pela vida desafiadora das ruas de Compton, onde o rapper nasceu e passou a sua infância (Compton ficou conhecida no final dos anos 80 devido a violência vivida pela população negra, denunciada por grupos de hip-hop pioneiros como N.W.A e Compton’s Most Wanted). Por isso Kendrick se vê como uma voz para os afro-americanos que não têm e ele acredita que tem uma grande responsabilidade de falar e lutar por eles.

O vídeo de quase sete minutos foi dirigido por Colin Tilley e The Little Homies e foi filmado inteiramente em preto-e-branco. Começa mostrando cenas do cotidiano em um bairro no norte da Califórnia. Um jovem afro-americano está deitado no chão enquanto a polícia e seu clima de destruição inundam a cena. Lamar começa a cantar com seus amigos em um carro carregado por policiais. Ao longo do vídeo, Lamar voa pela cidade e dançarinos mostram seus movimentos nas ruas. Tudo é muito lindo e poético até que, no final, o rapper está em um poste de luz até ser morto por um policial branco. Lamar lentamente cai no chão e conclui seu monólogo que havia iniciado no início. Os espectadores são brindados com um confortável sorriso – e a mensagem que ele deixa é: tudo vai ficar bem.



O diretor conseguiu construir um videoclipe ambicioso e ao mesmo tempo consistente com a raiva justificada e o medo que definiu seu álbum To Pimp A Butterfly. A crítica ao policial branco que deveria proteger o cidadão, independente de raça e credo é jogada na cara.

Amplamente aceito por crítica e público, o clipe somente confirma que mesmo que a escravidão tenha terminado há mais de 100 anos, os efeitos ainda são visíveis, como o racismo que ainda existe e ainda tira a vida de muitos afro-americanos. O vídeo de seis minutos é tão poderoso e rico que pode ser considerado o maior clipe de hip-hop de todos os tempos, além do que pode ser o maior álbum de hip-hop de todos os tempos, criado pelo que pode ser o maior artista de hip-hop de todos os tempos.

Diretores: Colin Tilley e The Little Homies

João Paulo Porto

Criador do site 1001 Videoclips e apaixonado por The Smiths.