Para Ver Antes de Morrer: 0021. Madonna | Express Yourself

Anos 80, Para Ver Antes de Morrer | 23 fev 18 - por João Paulo Porto

Madonna sempre foi uma atenta estudiosa da cultura pop. Na época de “Like A Prayer” — quando os seus poderes criativos estavam, inconfundivelmente, no auge — ela se dividia entre as polêmicas causadas pela faixa-título (a Igreja Católica se ofendeu com os crucifixos em chamas e com o beijo dado pela cantora em um santo negro enjaulado), e o manifesto feminista de “Express yourself”, cujo clipe resultou em uma das obras videográficas mais espetaculares de todos os tempos. 

 Filmado em abril de 1989 na cidade de Culver City, na Califórnia, “Express yourself” estreou em 17 de maio do mesmo ano na MTV. A repercussão foi impressionante: festejado pela audiência, o vídeo chegou a ser exibido uma vez a cada hora no canal pelo período de uma semana.

Na cabeça do então novato David Fincher (diretor que hoje você conhece de “O clube da luta” e “A rede social”) estava uma mulher poderosa e muito rica, possivelmente uma líder totalitária, que tem homens musculosos atuando como seus trabalhadores. Madonna ficou intrigada com a primeira versão do roteiro e decidiu que precisava de um personagem masculino para amarrar melhor a história. Namorada de Warren Beatty naquele momento, a cantora pediu ao ator para coestrelar o clipe ao lado dela. Educadamente, ele recusou. Contudo, anos mais tarde, disse: “Madonna queria demonstrar sua proeza sexual com o videoclipe de ‘Express yourself’, mas eu nunca quis ser uma parte dela”.

Em contradição a esta imagem ditatorial, Madonna — muito antes da exercício polissexual difundido com o álbum “Erotica” e com o livro de arte “SEX” — aparece acorrentada em uma cama de lençol e colcha brancas, instalada em um quarto azul, numa das cenas que estão no imaginário da década de 1990.

 

Depois de coreografia militarista e insinuações sadistas, a líder decide se entregar para um dos seus homens. Sorte do modelo Cameron Alborzian: bastou aparecer ao lado da cantora, sem camisa e suado, para que cachê do (até então) anônimo ir para as alturas. E ele deve isto a Beatty!

Também foi ideia de Madonna incluir referências de “Metrópolis” (1920), clássico do austríaco Fritz Lang. As imagens de operários trabalhando em fábricas e dos arranha-céus de uma cidade futurista foram apresentadas para Fincher. Imediatamente, o diretor definiu o cenário industrial como a principal locação do videoclipe.

Alem do clipe, são memoráveis as apresentações ao vivo de “Express yourself”. Abertura do set list da The Blonde Ambition Tour, a música embalou a primeira entrada de Madonna com o já lendário corselete de sutiã cônico confeccionado por Jean-Paul gaultier exclusivamente para a turnê. A performance do MTV Video Music Awards de 1989, quando Madonna, Donna Delory e Nicki Harris encenam a música já com algumas coreografias de “Vogue” (que só seria lançado no ano seguinte) entrou para história. Nesta premiação, o filme musical foi indicado nas categorias de Melhor Vídeo Feminino, Melhor Edição, Melhor Fotografia, Melhor Direção e Melhor Direção de Arte, vencendo as três últimas.

A Billboard elegeu “Express yourself” como o Vídeo Musical do Ano de 1989, enquanto a revista Rolling Stone e a MTV o brindaram com a 10ª posição no ranking “Os 100 melhores de todos os tempos”. Na lista do canal canadense MuchMusic, a posição é ainda melhor: número 3 na lista dos “100 videoclipes do século”. Recentemente, a Time listou os 30 melhores videoclipes dos 30 anos de MTV e o manifesto feminista de Madonna ficou com o oitavo lugar.

 

A PERFORMANCE DA BLONDE AMBITION ENTROU PARA HISTÓRIA — ESPECIALMENTE PELO SUTIÃ CÔNICO DE JEAN-PAUL GAULTIER

Tanto tempo depois de ser lançado, a música ainda influencia. Em entrevista recente, Madonna disse que na primeira vez que ouviu “Born this way” percebeu que “algo ali lhe era muito familiar”. A resposta veio na sua última turnê, “MDNA Tour”, quando inseriu versos da música de Lady Gaga no final de “Express yourself”. Para coroar, ela ainda foi mais irônica, cantando o refrão-título de “She’s not me”. Pois afinal: “there’s only one queen, and that’s Madonnna”.

Diretor: David Fincher | Ano: 1989

João Paulo Porto

Criador do site 1001 Videoclips e apaixonado por The Smiths.