Para Ver Antes de Morrer: 35. Nirvana | Heart-Shaped Box

Anos 90, Para Ver Antes de Morrer | 13 mar 18 - por João Paulo Porto
nirvana

O último álbum de estúdio do Nirvana, In Utero, é desesperadamente lindo. No entanto, apesar da produção bipolar e de uma música chamada “Rape Me”, não se pode negar que o ponto alto deste belo registro foi o clipe belamente bizarro de “Heart-Shaped Box”. Nenhum clipe do Nirvana oferece uma experiência tão rica para o expectador quanto este. 

Uma atmosfera nebulosa vibra no clipe de “Heart-Shaped Box”. Imagine um campo de papoula freqüentado por um homem velho  em uma cruz, uma mulher extremamente e assustadoramente obesa e para completar o circo de horrores, uma garotinha de ares inocentes pulando em um Ku Klux Klan.



As imagens carregam a inocência assustada do pesadelo de uma criança sábia. É lindo e é terrível. Mas o elemento mais incrivel do vídeo também é simples: Cobain cantando o terceiro verso e o coro olhando diretamente para a câmera, seus olhos irradiando cores profundamente azuis e poderosas o suficiente para quebrar as lentes. Essas imagens estão gravadas, em cores vivas, nos córtexes cerebrais de qualquer pessoa que sintonizou a MTV em 1993. Ou em 1994. Ou em 1995.

Anton Corbijn, o lendário fotógrafo de rock holandês (Joy Division, U2) que dirigiu o clipe icônico, revelou que antes de filmar o clipe, era um grande fã da banda e que foi, através de Cortney Love, que ele foi apresentado a Cobain. 

Acostumado com a produção 100% dos clipes, Corbijn viu-se obrigado a aceitar as ideias de Cobain. A maioria dos temas presentes foram ideia dele, deixando apenas para o diretor a mulher gigante e os pássaros mecanizados. Havia uma justificativa para isso: 

“As idéias de Kurt eram totalmente formadas, juntamente com a música. Kurt era tão incrivelmente detalhado em suas idéias, e elas eram tão boas, que, claro, fui com ele. Eu diria que eu contribuí com, talvez 15%.” – Anton Corbijn

“Em fato, Kurt era uma figura totalmente original. Ele era visionário. Para alguém que escreveu uma música e tinha uma visão detalhada do vídeo, ou qualquer coisa conectada a ela, isso é realmente difícil de encontrar.”, acrescentou o diretor.  



Corbijn tira proveito dessa visão turva de Cobain introduzindo imagens simbólicas, algumas delas, indecifráveis – outras nem tanto – todas, contudo, fascinantes para o olhar, mas que não ajudavam a decifrar qual era a mensagem que Kurt tentou transmitir? O diretor não tem certeza mas acreditava que se tratava de algo bem pessoal. “Talvez sobre lidar com as drogas ou com Courtney”. Mas é ai que está o charme do clipe. Essa aura de mistério que paira no ar até hoje. 

In Utero foi obscurecido pelo que veio antes (o blockbuster Nevermind) e o que aconteceu depois dele (o suicídio de Kurt Cobain, seis meses após o lançamento do clipe). No entanto, o que o tornou memorável foi, claro, este clipe.

Diretor: Anton Corbijn | Ano: 1993

João Paulo Porto

Criador do site 1001 Videoclips e apaixonado por The Smiths.