Anúncio com Código

Para Ver Antes de Morrer: #201. Marisa Monte | Segue O Seco

Para Ver Antes De Morrer | 20 jul 13 - por João Paulo Porto
marisa monte segue o seco

O retrato cru e pouco romântico da realidade do povo nordestino, fomes, secas (devido às chuvas escassas e irregulares, característica climática intrínseca a região), misérias e injustiça social está imortalizado de forma extraordinária por Graciliano Ramos, na obra prima da literatura brasileira Vidas Secas (1938). O livro consegue, a começar pelo título, mostrar a desumanização que a seca promove nos personagens, extremamente humanos, cujo realismo impregnado em cada detalhe do livro assusta como o solo estéril e castigado da região.

segue-o-seco-marisa-monte-2

A Caatinga é retratada em cores fortes.

O clássico ganhou um filme homônimo em 1963, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, conhecido por dirigir o original Rio, 40 Graus (1955) e assim como o romance, conta a história de uma família de retirantes que foge da seca do nordeste e sofre todo tipo de humilhação.

O diretor consegue reproduzir a atmosfera de forma altamente sensorial e visual, mostrando em preto e branco as paisagens secas e sem vida da caatinga brasileira – bioma único do nosso pais – assim como a caracterização dos personagens tão real que parecem pessoas comuns sendo documentadas em seu dia-a-dia. Tão memorável quanto tudo isso é a agonizante morte da cadela Baleia, animal de estimação da família – simplesmente maravilhosa, uma das cenas mais comoventes da história.

Composta por Carlinhos Brown, “Segue o Seco” é uma canção da cantora brasileira Marisa Monte, lançada no CD Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão (1994). Um videoclipe da música, dirigido por Cláudio Torres e José Henrique Fonseca, foi gravado em 1995 e mostra imagens de Marisa junto à habitantes de uma localidade que sofre com a estiagem de chuva. No final, começa a chover, e Marisa e os habitantes celebram dançando.

segue-o-seco-marisa-monte-5

Uma das maiores características do povo nordestino é a fé em dias melhores.

Os quase 4 minutos de videoclipe mostram imagens bem estruturadas interagindo no contexto da seca em um nível tão esplêndido e com tamanha empatia que chega a causar arrepios emocionantes para quem assiste. As cores, o jogo de edições, a vivacidade das cenas são notáveis e extraordinariamente rítmicas como a melodia de uma música e possuem as características contagiantes e tradicionais da música popular brasileira.

O clipe possui elementos de simbologia religiosa, como cruzes, velas e imagens de santos, uma mistura prevalente da fé poderosa que esse povo abraça, por não ter onde recorrer. E é no olhar cansado e marcado na pele, pelo sol escaldante de todos os dias, que conseguimos separar a avareza da humanidade. A chuva, quase como uma dadiva, cai na terra e molha o solo seco, como um milagre. A certeza de bons ventos de esperança enchem os pulmões e a sensação da água tocando a pele é como tocar o veludo. É quase uma idílica da realidade nordestina, assim como o fez Graciliano Ramos em Vidas Secas.

segue-o-seco-marisa-monte-4

Cena inspirada no trágico Vidas Secas de Graciliano Ramos.

As comparações com o filme são claras: dois garotos que brincam com ossos de animais, que provavelmente foram vítimas da estiagem, não tem ideia da realidade em que vivem, assim como os personagens do filme.  O clipe começa com imagens da caatinga em preto e branco, que remetem ao cenário comum do filme. As pessoas dançam em volta de um símbolo religioso, como se estivessem dançando a chegada da chuva, celebrando uma música tipicamente característica das religiões africanas que emergiram no brasil junto com os negros escravos.

Assim como ocorre no filme, há a cena em que uma mulher, com aspectos de curandeira ou mãe-de-santo, opera um ritual de espiritualidade. O homem que carrega nas costas a lata d’água revela um dos símbolos do povo nordestino, tão corriqueiro na obra cinematográfica. Porém, lá, as cuias tomam o lugar das latas.

segue-o-seco-marisa-monte-1

Quando a chuva cair, momento de esperança.

As cenas finais deixam claro que a vitória pode ser nobre. Os diretores modulam cada cena do clipe numa nuance e sensibilidade semelhantes à versão cinematográfica, bem como conseguem interagir com a obra escrita no que se refere ao aspecto psicológico. A chuva cai do céu como ouro mas logo ela passa e nas mãos calejadas dos homens que acabaram de sentir o frescor de uma enxurrada, a certeza de que a mudança pode acontecer, mas ainda está longe.  Uma leve poesia visual.

Diretores: Claudio Torres e José Henrique Fonseca | Ano: 1995

João Paulo Porto
João Paulo Porto

Fundador do 1001 Videoclips e louco por The Smiths

  • Fernando Ramos

    Vai que vai! Bem loko o trampo que vcs fazem!

  • OBRIGADO! ESTAMOS AI!