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Para Ver Antes de Morrer: #240. Jus†ice | Stress

Para Ver Antes De Morrer | 04 jul 14 - por João Paulo Porto
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justice6O ultra-realista “Stress” do duo francês  (formado por Augé e Rosnay) é uma provocação social arrebatadora. Diferentemente da alegre e contagiante D.A.N.C.E., aclamada mundialmente –  o clipe retrata de forma perturbadora, uma gangue de garotos negros com jaquetas de couro estampadas com o simbolo † (que também é o simbolo do Jus†ice) perambulando pelas ruas de Paris, arrebatando bolsas, vandalizando carros, quebrando câmeras de turistas e agredindo pessoas inocentes enquanto uma câmera amadora capta as expressões de assustados das vitimas. 

O grande problema do videoclipe está na veracidade ou da proximidade com o real das cenas sem algum tipo de diálogo ou contexto mais direto que pudesse justificá-las (entra em jogo a problematização da dificuldade para controlar o destino da imagem e integridade do seu significado).

Augé e Rosnay tentaram acabar com a polêmica, defendendo o clipe como uma fusão de arte e entretenimento. “O filme nunca foi concebido como uma estigmatização dos subúrbios, nem uma incitação à violência e muito menos, como uma forma dissimulada, queríamos entregar uma mensagem racista”, declarou o duo. O diretor afirmou que não tinha a intenção de produzir algo controverso, pois poderia colocar prostitutas e nazistas. “A idéia era fazer um vídeo muito violento para coincidir com a música. É quase realista e muita gente pensou que fosse verdade.”, completa o diretor.

Mas do que se trata necessariamente o clipe?

Este trabalho do diretor  é menos direto e contribui para diversas interpretações. Entre homenagens aos clássicos de Laranja Mecânica (Stanley Kubrick) e Warriors – Os Selvagens Da Noite (Walter Hill) passando outros filmes inovadores que retratavam a vida suburbana com realismo brutal à simples visão de um rock eletrônico apocalíptico. Alguns podem considerá-lo uma jogada de marketing de mal gosto. Outros já o veem como uma crítica brutalmente eficaz da visão da mídia e da sociedade sobre os subúrbios pobres das cidades francesas. Ainda há aqueles que o condenam justamente por ilustrar perfeitamente os limites (ou a falta deles) da Web.

Porém, o que mais se encaixa no contexto da realidade francesa é uma interpretação pueril dos conflitos parisienses de 2005/2006, quando jovens entraram em conflito com a polícia após uma onda absurda de desemprego e preconceito racial. O clipe inicia-se com jovens no subúrbio, uma região de Paris onde predomina a maior concentração de imigrantes africanos.

tumblr_le4ynhoW541qc4debo1_500O clipe não só reacende o debate sobre a violência urbana como coloca fogueira na relação delicada entre religiões e seus conflitos. Vale lembrar que um dos subúrbios onde aconteceram os conflitos era de maioria muçulmana que culminou em um ataque ordenado pelo governo em uma mesquita.

A repercussão não foi positiva e o clipe recebeu críticas amargas de diversos intelectuais da atualidade. Para o filósofo espanhol Eduardo Subirats, entrevistado pelo Estadão, considerou o clipe, cínico, genocídio e irresponsável e foi mais além.

O também professor da New York University afirma que são clipes como este que ajudam a definir as políticas globais sufragadas pela união europeia e os EUA e que ele anuncia algo muito pior do que as visões apocalípticas de Orwell e Huxley.

O DJ Orion o chamou de pior videoclipe feito até hoje e condenou a violência gratuita como um protesto pós-moderno da mídia ao mostrar uma violência sem sentido.

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Quando foi perguntado se ficou surpreso com a quantidade de controvérsia, o diretor respondeu que se sentiu feliz por ser o homem mais odiado da França por alguns meses e que só é possível chamar atenção dessa forma no seu país se tiver relações sexuais com crianças.

Há aqueles que o defendem, como o francês comentarista de mídia online David Abiker, que considera “stress” “uma obra de arte moderna”.

Indiscutivelmente autentico, e por um custo muito abaixo dos padrões atuais, “Stress” reverberou mundo afora como um exemplo de como o videoclipe, com a ajuda da web, se tornou uma plataforma poderosa de expressão artística, mesmo com baixo-orçamento.

E mesmo sendo um trabalho duro, cruel e violento, ele se mostra ainda consciente e socialmente sensível que serviu para abrir um debate sobre temas polêmicos e levantar questões – assim como fazem o cinema, a literatura e arte contemporânea.

Diretor: Romain Gravas | Ano: 2008

João Paulo Porto
João Paulo Porto

Fundador do 1001 Videoclips e louco por The Smiths