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Para Ver Antes de Morrer: #242. Fiona Apple | Criminal

Para Ver Antes De Morrer | 18 jul 14 - por João Paulo Porto
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O que poderia soar desesperadamente apelativo, ainda permanece poderoso e enigmático. E mesmo que a excelente direção de Mark Romanek, resgate a estética visual do pornô amador dos anos 70, ainda é possível ver o clipe como um voyeurismo encantador e belo.

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A cantora surgiu em 1996 como uma promessa do pop mas ficou ali mesmo, com um único sucesso nas paradas, mas suficiente para se tornar um clássico do pop nos anos 90.

Com o videoclipe de “Criminal”, ela dá um passo além das garotas normais da mídia daquela época. Se Madonna já tinha deixado de lado a imagem de mulher provocadora e Cindy Lauper estava condenada ao ostracismo, restava para Fiona Apple e Alanis Morrissette cumprir o papel de mulheres más para uma geração que crescia ao som das Spice Girls.

Entretanto, ao contrário da canadense que se tornou um fenômeno popular juvenil com Jagged Little Pil ao cantar o orgulho de ser durona em humilhar o seu ex na ousada “You Oughta Know”, Apple conseguiu ir mais longe de suas colegas do sexo feminino com o clipe de “Criminal”. Ela soube usar sua sexualidade adolescente desajeitada para promover uma persona sexualmente compatível com os temas de suas letras, geralmente falando sobre relacionamentos com homens tempestuosos e cáusticos.

“Criminal” era provocante e libertadora, quase uma visão masculina de um relacionamento. Fiona confessa que pisou na bola com um cara e que implora por ajuda para se redimir do “pecado”. Apple criou acompanhamentos visuais interessantes para sua canção, ao passo que promovia a imagem dura independente que desejava.

Em seu videoclipe para “Criminal”, ela aparece muito magra, cercada pelo que parecem ser modelos tranqüilizados, que se despem enquanto ela canta letras como “Eu tenho sido um má, menina má.”. A aparência da Apple, descrita pelo New Yorker como sendo semelhante à de uma “mal alimentada modelo da Calvin Klein” estimulou as acusações de que o vídeo promovia a banalização do uso da Heroína e carregava suaves, quase imperceptíveis “conotações de pornografia infantil”.

Com uma posição ferozmente intransigente em relação aos críticos, Apple disse, durante a entrega do prêmio de Melhor Novo Artista, no MTV Awards, no final daquele ano:

 – “todo mundo lá fora, que está nos assistindo … este mundo é uma merda, e você não deve modelar a sua vida sobre o que você acha de acordo com o que os outros pensam ser legal.”

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No inicio da era MTV, os clipes eram dominados por imagens de mulheres submissas, fazendo papel de dançarinas, back-ups, ou outros papeis menores, mas seu objetivo principal era ser belos objetos sexuais para ser admirados por adolescentes (um bom exemplo é o clipe de “Hot For Teacher”, do Van Halen). Parece cretino para você, mas as mulheres desses vídeos, pareciam gostar de posar para a câmera e queriam ser objeto de voyeurismo.

Mas na metade dos anos 80, artistas como Cindy Lauper, Chrissie Hynde e Madonna começaram a construir uma nova imagem da mulher como uma tentativa de reformular o discurso nos videoclipes.

Cindy Lauper dominou as paradas cantando sobre festas e curtições. Madonna foi mais além e propôs uma discussão profunda sobre o papel da sexualidade feminina na sociedade com clipes sempre impactantes e competentes como “Open Your Heart”, “Like A Virgin” e “Express Yourself”, entre outros. Tanto Madonna como Lauper sempre foram consideradas modelos positivos para as adolescentes, porem, o que dizer de Fiona Apple que explorou temas pesados, como drogas e voyeurismo?

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Antes de julgarmos qualquer atitude de Apple, vale a pena documentar um pouco de sua turbulenta infância. Aos 13 anos, ela foi estuprada por um invasor no edifício onde morava. Esse incidente foi relatado com freqüência em entrevistas e serviu como inspiração para as músicas de seu álbum Tidal. Esses detalhes são importantes porque representam uma parte da essência da cantora. Em outras palavras – uma revelação preocupante quando combinada com o impacto das imagens visuais do vídeo de “Criminal”.

No final do clipe Apple canta: “Eu vim para você porque eu preciso de orientação e para ser sincera eu não sei por onde começar”. Somente neste ponto que as letras e as imagens visuais sincronizam com seu significado. Apple deixa de tratar de assuntos amorosos e parte verbalmente par nos revelar sua dor. O foco da música agora se afasta do seu relacionamento com os homens (que são apenas criaturas sem rosto de qualquer maneira) e foca em direção a sua relação com o seu eu interior. Ela apresenta-se como vítima sexual e, em seguida, convida o público a participar do assalto.

Claro que tudo isso seria discutível se “Criminal” não fosse meticulosamente filmado e editado para esses propósitos. O diretor Mark Romanek criou um efeito quase hipnótico de sonho em sua interpretação de uma música memorável. E sabia do que tinha em mãos e criou um pornô moderno e suave de quatro minutos que se revelou um clipe de rock moderno, influente e contemporâneo.

A questão agora é se a Apple amadureceu com a repercussão de “Criminal” e soube utilizar imagens mais positivas de si mesma e as mulheres em geral em seus futuros clipes.

Diretor: Mark Romanek | Ano: 1996

João Paulo Porto
João Paulo Porto

Fundador do 1001 Videoclips e louco por The Smiths