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Para Ver Antes de Morrer: #275. Echo & The Bunnymen | Bring On The Dancing Horses

Para Ver Antes De Morrer | 18 jan 15 - por João Paulo Porto
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Lançada como single em 1985 e também como parte da trilha sonora do filme cult A Garota De Rosa Shocking, “Bring on the Dancing Horses”  ficou conhecida como um divisor de águas na carreira da banda. O som pesado produzido incorporando elementos pop não conseguiu mascarar um dos grandes desejos dos Bunnymens: ser pop. E esse foi o maior erro de suas vidas.

artworks-000046537225-2nw14j-originalComo resultado, os próximos discos não foram tão bons quanto outros que o grupo já lançou antes e não chegaram nem perto do prestigio e devoção que fãs e críticos haviam depositado nos quatro álbuns anteriores à coletânea de 85. Mas não foi com “Bring” que o Echo fez algo ruim. A faixa era excelente, apenas estava longe de ser o ponto alto da carreira da banda.

O videoclipe de “Dancing Horses” foi um dos primeiros dirigidos pelo excelente Anton Corbijn em início de carreira. Era 1985, a banda havia lançado um ano antes, sua obra-prima, o álbum “Ocean Rain”, mas o disco, infelizmente não foi recebido com louvor pelo grande público (digo, vendas) na época e a banda partiu para uma coletânea de sucessos no ano seguinte batizada de Songs To Learn And Sing. O carro-chefe era o single chiclete e de bela melodia, “Bring On The Dancing Horses”. Mccullan apostava em um top 10 mas a faixa alcançou apenas o numero 21 nas paradas inglesas e número 15 na Irlanda.

O clipe começa com uma vaquinha dentro daquele famoso circulo que é o simbolo da MGM. Durante todo o video, as silhuetas de objetos em forma de animais aparecem voando pelo céu, ora rosa, ora azul, por cima dos quatro integrantes. Entre as figuras, aparecem uma de um anjo, um peixe e mais uma vez, a vaca. De repente, os integrantes aparecem puxando uma corda. Na outra ponta temos um cavalo e um coração e de repente, uma cabeça de cavalo em um corpo humano aparece desfilando por entre pessoas.

No meio do caminho a vaca resolve empacar, e aí não tem jeito, nem mesmo quando um coração resolve aparecer voando, a vaquinha não sai do lugar. Este mesmo coração vai parar nas mãos de Ian, que o arremessa ao ar, cai no chão e se parte em dois.

Ao fundo passa uma bicicleta com duas pessoas, passam cavalinhos, bicicleta pedalada por um cavalo desengonçado, logo depois eles todos da banda aparecem como se estivessem caminhando por um deserto, e por fim aparecem lado a lado para o final do clipe. Uma cena que lembra bastante o início do clipe do “Enjoy the Silence” do Depeche Mode.

Com características inerentes ao pop dos anos 80, dá pra ver que é um clipe feito para conquistar a empatia do grande público.

 

“Dancing Horses” é um excelente exemplo de uma música que não faz absolutamente nenhum sentido se tomado literalmente. Cavalos dançantes? Jimmy Brown? Charlie Clown? O que estariam eles falando? Muito da narrativa simples mas repleta de simbolismos do videoclipe encarna o lirismo e significado da canção sem que percebemos.

E é ao analizar essas letras aparentemente bizarras, que o seu verdadeiro significado começará a surgir. Mesmo que seja difícil de entender imediatamente esse tipo de linguagem críptica, é possível, pelo menos sentir que há algo ali e tais sentimentos não são infundados. Como questionamentos sobre a existência humana, religião, massas e até mesmo a alquimia, algo nesta canção parece dizer sobre algo maior.

O refrão simbólico é uma referencia à crença milenar da alquimia e o ocultismo. Parece surreal quando Ian canta “Primeiro vou fazer para então quebrar em pedaços”. Muito além de surreal, parece um delírio, algo totalmente fora da normalidade, mas é aí que esconde o ponto de vista do Alquimista. É ele quem cria para depois destruir sua própria criação. Isso tudo é parte de seu processo alquímico da perfeição. E nos olhos dos alquimistas, tal destruição é vista como uma coisa boa, porque abre caminho para um mundo totalmente novo.

Se prestarmos atenção ao final do vídeo, há um certo tipo de sentimento impregnado nos lábios paralisados dos rapazes no último refrão final (traga o novo “messias” …) a banda interrompe a sincronização labial e olha em silêncio para a câmera. O que mais parece ser talvez uma incredulidade sobre o duvidoso poder e salvação do Amor.

tumblr_n9dshuo1lF1sn7uyno1_500Apesar da tentativa se soarem acessíveis para uma geração movida ao combustível pop, ainda restava um pouco de pretensão literária. Os cavalos dançarinos e decapitados não tem o livre arbítrio para além do que eles foram treinados, como as legiões contando as mesmas mentiras sentimentalistas, os aforismos cansados, os sonetos sonolentos. E tudo é efêmero em pele e osso. E o que nos resta no final é implorar para que venha um novo messias, se é que ele existe.

A parte “novo messias”  é o que realmente trouxe significado esotérico para a música. O que é mais surpreendente ainda é o fato de que tais palavras não são perceptíveis em canções populares, e permanecem relativamente despercebidas.

O verdadeiro poder deste videoclipe é que ele permanece encoberto e incompreendido, assim como o universo da alquimia.

Diretor: Anton Corbijn | Ano: 1985

 

João Paulo Porto
João Paulo Porto

Fundador do 1001 Videoclips e louco por The Smiths