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“Big Girls Cry”: Sia e a ode às lágrimas – porque grandes garotas choram sim

Artigos | 03 abr 15 - por João Paulo Porto
sia big girls cry

Por Emmanuel Guimarães do blog 

“Eu posso chorar, estragar toda a minha maquiagem. Não ligo se não estou bonita”, diz  em “Big Girls Cry”, não necessariamente nesta ordem, mas ela diz e  interpreta. Não é o tipo de interpretação que se espera no cenário pop atual, é algo estranho, é o corpo pelo corpo sendo explorado e, as vezes, negando a noção que temos de beleza.

Quando choramos, nos despimos de tudo o que segura nosso rosto. A cara se contorce toda, emitimos sons estranhos, murmúrios. Nossas mãos trêmulas se perdem, não sabemos se enxugamos as lágrimas, escondemos o rosto ou apertamos o tecido da nossa roupa tentando desesperadamente nos firmar em alguma coisa. Mesmo quando nossa entrega é sutil, nosso olhar não nega o que sentimos.

Se você quer fazer o teste e entender um pouco – talvez seja difícil lembrar e na certa você não irá -, num momento de dor tente ir até o espelho mais próximo e se veja chorando. Tente se ver vulnerável e seu corpo cedendo as emoções. Seu delineador, sua barba bem feita, o branqueamento que você fez no mês passado nos seus dentes, tudo se desfaz por um tempo. Deixar que o outro, e mais precisamente aquela pessoa que você ama o veja assim, é um ato de coragem.

 

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No clipe, um fundo preto, uma performer de 12 anos. Nada de passos bem demarcados. Nada de bundas rebolando até o chão, nada de línguas, nada daquela coreografia que dá pra ensaiar e arrasar na pista de dança. Nada do que o pop nos oferece e nós aceitamos de bom grado e, sem falsos moralismos musico-corporais, que gostamos muito. É estranho, mas ainda sim o que Maddie faz em frente à câmera permanece sendo uma coreografia elaborada com movimentos que parecem ter sido feitos na hora, sem ensaio com uma leve edição e jogo de luzes. É reagir à canção, é usar o corpo como bem entender, sem limite ou até onde as articulações permitem. Maddie faz para todo o mundo literalmente ver aquilo que você faz no quarto de portas trancadas.

Levando em consideração os conceitos de coreografia apresentados, agora imagine-se numa festa onde todos decoraram milimetricamente cada careta, cada movimento de mão e olhar da garota que vemos no clipe. Talvez você achasse bonito, pelo fato de todos executarem os mesmos movimentos, afinal a ordem mesmo caótica, implica naturalidade. Agora imagine que todos, assim como em “Big Girls Cry”, movem-se no mesmo estilo, mas com gestos diferentes, livres e aí sim, talvez você pudesse pensar que todos teriam enlouquecido. O que é natural do ser humano, os instintos e reações, a ausência das máscaras colocadas no dia-a-dia, as várias possibilidades de se mover provocam certa repulsa.

Inventamos alter egos todos os dias para sobreviver e quando nos deparamos com Maddie, ainda uma criança, mas com um pé na puberdade, trazemos à tona a sinceridade infantil que ainda não foi completamente tolhida pelos adultos. Ainda é conservado um olhar que não é totalmente deturpado. Ela ainda pode errar e fazer como quiser e Sia parece aproveitar isso, do pouco da pureza que só quem ainda está livre das obrigações e responsabilidades, brigas e desejos do mundo das pessoas grandes pode se propor a emprestar.

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Inventamos alter egos todos os dias para sobreviver e quando nos deparamos com Maddie, ainda uma criança, mas com um pé na puberdade, trazemos à tona a sinceridade infantil que ainda não foi completamente tolhida pelos adultos.

Uma das características que mais lembram o nome “Sia”, além de ser uma exímia compositora, é o fato dela se negar a mostrar o rosto em videoclipes e apresentações ao vivo. Como foi dito, Britney, Miley Cyrus ou Katy Perry dançando em suas apresentações são sempre muito bem vindas, mas numa época de culto a jovialidade em que há uma guerra travada não entre indivíduos armados com espadas, mas com paus de selfie, Sia deixa uma interrogação sobre o culto à imagem e as razões de não querer mostrar o rosto. Estamos sempre em busca da melhor foto de perfil, do filtro que não deixe aparecer àquela marca de expressão ou que disfarce a nossa má vontade em tirar uma foto para prestar contas à nossa rede de “amigos” sobre o quanto somos cool. E fazemos login mil vezes por dia para ver quem e quantos curtiram nossos posts e fotografias. Uma vez ignorados, fica a dúvida entre deixar lá ou apagar, afinal é tudo muito descartável.

O que Sia nos diz é que as emoções existem para serem sentidas e não negadas. Tendemos sempre a evitar a tristeza, a nossa e a dos outros. Porque raiva, ódio e a própria tristeza não são necessariamente coisas ruins, o problema é o que fazemos com elas. Que a raiva não nos consuma, que o ódio não tire a vida de ninguém e que o fato de estar triste não seja algo crônico. Que tudo isso se desfaça em bilhões de litros de lágrimas derramadas no pé da cama ou no ombro de alguém.

Grandes e pequenas garotas, seja qual for o significado da grandiosidade ou da pequenez, choram e choram não porque são tristes (e mesmo que fossem), não porque passam 24 horas reclamando da vida (e mesmo que passassem), mas porque tem direito (e sempre terão) e são, acima de tudo, humanas.

João Paulo Porto
João Paulo Porto

Fundador do 1001 Videoclips e louco por The Smiths