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Adriana Calcanhotto em “Vambora” – Sobre poesia, amores e perdas

Desconstruindo Videoclipes, Videoclipes | 05 jul 15 - por João Paulo Porto
adriana calcanhoto vambora

Por Emmanuel Guimarães do blog 

Esse é o primeiro clipe nacional aqui no Desconstruindo Videoclipes. Confesso que meu apreço maior é por músicas feitas em inglês, provavelmente porque meus ouvidos – preconceituosos e ignorantes – devem achar bonito o som dos fonemas da língua inglesa. A canções em inglês podem estar me xingando ou narrando fatos descontextualizados, mas se me soam bem, que elas então sejam consumidas com voracidade pelos meus tímpanos.

Com “Vambora”, Calcanhotto me lembra da beleza do português. Essa faixa, muitas vezes me coloca pra dormir tamanha a calma que passa. Duas coisas me encantam na vida, as leis, origens e mistérios do Universo e a capacidade e sensibilidade humana de reunir letras, formar palavras, compor uma melodia e cantar frases complexas impregnadas de metáforas ou orações simples e sem rebuscamentos.

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“Vambora” é direta, não trai os sentimentos de quem a compôs. É uma materialização sonora da dependência do outro, da saudade. É o erro tão humano, compreensível e vulnerável de colocar a própria felicidade na palma da mão de alguém que não seja você: “Entre por essa porta agora, e diga que me adora. Você tem meia hora pra mudar a minha vida”. Os livros de autoajuda gritam que a felicidade começa em nós e que ninguém além de nós mesmos pode mudar a nossa vida. O que os livros podem não conhecer é a sensação de incapacidade e insipidez da perda ou a melancolia dos domingos. Na música, ainda é estipulado um prazo: 30 minutos, pois, o que se demora, “é o que o tempo leva”. Gosto do estrago, de pessoas que têm sangue quente correndo nas veias. Me atrai àqueles que, mesmo com o mundo inteiro ditando que o futuro é a única coisa que se tem, alguns insistem em cultivar o passado com uma nostalgia incurável.

Se é verdade que somos feitos de estrelas, vivemos mais como elas do que é possível imaginar. Quando um astro desses morre, sua luz ainda vaga por bilhões de anos pelo espaço e assim são os que nos deixam. Se foram, mas suas luzes ou trevas ainda estão presentes, mesmo que fracas: “Ainda tem o seu perfume pela casa, ainda tem você na sala, porque meu coração dispara quando tem o seu cheiro dentro de um livro”. Se há, também, um momento em que a razão  se coloca na canção, é quando o “dispara” pode ser confundindo com “diz para”. A tese seria verdadeira, já que como diz o ditado: ninguém manda no coração. É ele que manda na gente.

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No clipe, uma casa vazia, paisagem estéreo e simples fazendo referência e sendo fiel ao que diz a letra da canção. As cenas são intercaladas com um traveling lateral de câmera com luzes que vão do quente do amarelo ao frio do azul, tão representativo quanto o coração do letrista. Quente como é a paixão. Frio como é a perda. Ainda assim, o rosto de Calcanhotto é suave e torpe, não é uma performance facial gritante o que não quer dizer que os sentimentos são menores. Há diversas formas de exprimir a dor e tristeza e a diferença entre quem grita e esperneia e alguém que se recolhe no quarto, é que um dos tipo é – apenas – mais barulhento do que o outro.

Gosto das metáforas. Gosto do “cinza das horas” da “noite veloz”. Gosto da definição de que o amor é eternamente adolescente e inocente se resumindo a batidas do coração.

João Paulo Porto
João Paulo Porto

Fundador do 1001 Videoclips e louco por The Smiths